RENATTA

RENATTA

PARA TRANESCREVER ME FAZ VIAJAR EM LUGARES DISTANTES ONDE O CORAÇÃO E A MENTE VOAMSCREVER AO PAPE

PARA TRANESCREVER ME FAZ VIAJAR EM LUGARES DISTANTES ONDE O CORAÇÃO E A MENTE VOAMSCREVER  AO PAPE
Sou....Mulher amiga, amante, mãe...Mulher que inicia seu dia trabalhando...E termina, amando...Mulher que protege, luta briga e chora.. E que nunca deixa o cansaço.. Tirar o seu sorriso, sua força, a esperança..Que está sempre pronta a amar, e proteger a sua prole... Sua vida, o seu amor..Mesmo que esteja chorando por dentro..No seu olhar esta sempre presente.. A força de lutar por tudo o que quer Mesmo cansada.. Está sempre pronta para seguir em frente..E quando cai, se levanta tirando de sua queda..Uma grande lição..Aprendendo então, a passar por cima das armadilhas da vida.. Mulher Guerreira que se torna..Forte e frágil ao mesmo tempo...Que busca dentro de seu interior a força..Que chora para poder se fortalecer..Através das lágrimas que rolam.. Que se levanta para poder...Levantar a quem está em sua volta..Precisando de uma palavra de carinho..De esperança, de amor... Essa é a mulher guerreira Que se faz de forte..Mas ao mesmo tempo é tão frágil...Como um cristal...Mas que não se deixa quebrar tão facilmente... Sou filha de Iansã....e de Ogum... SIMPLESMENTE RÊ

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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Para as mulheres que querem escrever

Quem quer escrever de verdade tem que viver como uma escritora

Escrevendo na privacidade
“Quando você está escrevendo, você está invocando alguma coisa. É um ritual. Você precisa ser bravo e respeitoso e ás vezes sair da frente do que quer que você convidou para entrar no quarto.” “Escrever é caçar pássaros sem matá-los.” Tom Waits.
Para as mulheres que querem escrever e ser escritoras, só posso dizer isto: vocês não vão ter uma vida simples e comum. Não se iludam, meninas. Quem quer escrever de verdade tem que viver como uma escritora. E viver como escritora inclui uma entrega absoluta a experiências inusitadas, uma atenção obsessiva às pessoas e uma observação permanente a tudo o que nos rodeia. A escrita requer abandono, improviso, imaginação, capacidade infinita de fabulação e uma técnica que não se aprende fora do exercício diário com as palavras.
Alguns homens vão se apaixonar por você, minha amiga, porque acham o máximo uma mulher escritora. Acham excêntrico, por vezes, exótico. E vão se desapaixonar pelos mesmos motivos. Um dia que você não fizer a omelete que ele tanto ama porque está atrás de um conector adequado para o conto em andamento, o amor acaba. O único imenso amor que você poderá experimentar será o de uns poucos leitores e este amor será verdadeiro e para sempre. O único amor possível para uma mulher que escreve é o amor que ela sente por este expediente que nos leva em intervalos curtos do céu ao inferno ao longo de uma vida.
Doris Lessing, Virginia Woolf, Sylvia Plath, Clarice Lispector e tantas outras amaram mais as palavras que os próprios filhos ou outras pessoas, elas amavam os personagens, e foram, eventualmente, trucidadas por tamanha ousadia. Elas amavam o pensamento, a criação e o ofício, o duro ofício de criar vidas de uma outra maneira e fazer esta vida reverberar pelos tempos.
Hoje subi no ônibus para ir trabalhar e me ofereci para carregar uma bolsa de livros pesada de uma moça que estava em pé ao meu lado. Ela aceitou a gentileza. Imediatamente imaginei que havia uma criança dentro da bolsa e que a moça descia rápida do ônibus me deixando com o bebê. Assim são os escritores, dementes, imaginativos, doidos. Uma vez, no aeroporto do Rio, cai num pranto daqueles de soluço e ranho enquanto um rapaz muito gentil se aproximou com um lenço e perguntou, querendo ajudar, o que havia acontecido para que eu chorasse daquela maneira. Eu disse a ele que era melhor ele não saber, que ele ia ficar muito assustado. Tinha acabado de entender o final do romance que estou escrevendo, uma cena de desencontro de dois amantes num aeroporto e chorei como uma bezerra desmamada sob o olhar atônito do rapaz. Não tinha como explicar a ele que por muito menos pessoas são internadas como descompensadas e disfuncionais.
Escritores podem passar dias imaginando como vão matar alguém, planejando vinganças sórdidas, assaltos, tramoias, traições. Mentem quase sempre sem o menor pudor. E podem passar dias e noites mergulhados em dicionários analógicos, de sinônimos e antônimos num sofrimento sem fim em busca daquela única palavra capaz de dizer o que eles precisam. Não são pessoas normais. São intensas e sem graça, não sabem lidar com as coisas práticas da vida, oscilam entre a histeria e a fobia, e são afeitos aos subterrâneos onde poucos se atrevem a ir, como arqueólogos perdidos que quase sempre não sabem o que procuram e menos ainda o que vão encontrar.
Precisam viajar e conhecer cidades, paisagens, cenários, pessoas e, principalmente, ouvir o ouro em pó que elas nos brindam quase sempre sem querer.
No belo filme do Fred Zinnemann, “Julia” de 1977, que conta a vida da Lillian Hellman, baseado no primoroso texto “Pentimento”, Jane Fonda que interpreta a Hellman, bêbada e envolta em peles num teatro de Moscou, liga para o Dashiell Hammett contando da sua felicidade por estar com um belo casaco de peles e sendo ovacionada como dramaturga. Ele diz a ela que nunca esqueça que nada disto tem nada a ver com escrever. Ele sabia de coisas simples que são frequentemente esquecidas. Escritores não combinam com celebridades. Escritores vivem de outra matéria, de uma matéria suja, feia, escondida, precisam de solidão, disciplina, isolamento e silêncio, um silêncio que nos faz obrar por dentro, escavar no obscuro e no desconhecido.
Assim, minhas queridas amigas que querem escrever, desistam da vida sonhada se quiserem amar as palavras como elas precisam, entreguem-se a uma vida que o ofício é quem cria, e não o contrário. E escrevam pelo único motivo nobre que nos move para este destino estranho, porque não sabemos fazer outra coisa, ou pelo simples fato de que não queremos fazer outra coisa, e porque foi ele que nos escolheu. É simples. E bem complicado de fazer acontecer. Desista do êxito, do dinheiro, dos editores generosos e compreensivos, do sucesso e da vida fácil. Escrever é para os doidos, os abençoados doidos, que tocam ali, com suavidade e violência, numa pulsão que não se encontra em nenhum outro lugar.
Boa sorte e uma infinita paciência para todas nós.

O que querem as mulheres?

Um mistério inerente aos homens

Waterhouse, John William, Hylas e as ninfas de 1896
A pergunta que se faz, reiteradamente, em relação às mulheres e que denuncia um misto de incompreensão, por um lado e de impaciência ou mesmo intolerância por outro, tem sido formulada numa equação já conhecida e que se populariza mais e mais: afinal, o que querem as mulheres? Ou, o que quer uma mulher?
A pergunta atribuída originalmente a Freud, não lhe pertence de forma única e exclusiva. Foi ele quem perguntou a Maria Bonaparte: [...] "A grande pergunta [...] para a qual não encontro resposta apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina é a seguinte: o que quer uma mulher?". Posteriormente, referindo-se ao pouco conhecimento que se tem da vida sexual da menina, em relação à vida sexual do menino observa que [...] “que não nos envergonhe esta diferença; com efeito, inclusive a vida sexual da mulher adulta continua um continente desconhecido (dark continent) para a psicologia.” Mesmo que o texto seja de 1926, a atualidade da pergunta permanece, nas mais diversas áreas, o que reforça a ideia da existência de uma permanente insatisfação e indecisão por parte das mulheres, típica de quem não sabe o que quer.
Mas antes de Freud, Geoffrey Chaucer no clássico texto “Os contos da Cantuária”, composto entre os anos de 1386 e 1453, há, portanto, seiscentos anos atrás, já elaborara a insistente pergunta.
O texto de Chaucer narra a história de vinte e nove peregrinos que saem de Londres para a cidade da Cantuária, para uma visita piedosa ao túmulo de Santo Tomás Beckett. Para que os peregrinos se distraiam e tornem a viagem mais amena, o Taberneiro sugere que cada um dos peregrinos conte duas histórias na ida e duas histórias na volta, e que a melhor história será por ele premiada com um lauto jantar. O conjunto dos peregrinos, que retrata num amplo painel da sociedade medieval, está composto por tipos variados, homens e mulheres de diferentes ofícios e originários dos diferentes extratos sociais. Participa deste grupo uma exuberante e alegre viúva, grande conhecedora do comércio de telas e tecidos, figura peculiar na própria narrativa, a Mulher de Bath que, posteriormente, viemos a saber, que se chama Alice.
No prólogo ao conto que vai ser narrado, a Mulher de Bath conta a história de seus cinco maridos, suas estratégias e contendas com cada um deles e apresenta uma receita para ela infalível para garantir um bom comportamento. O êxito de um bom casamento depende do fato de que as mulheres devem manter o comando nesta relação. Isto dito, a Mulher de Bath inicia o seu relato.
Um jovem ardoroso e solteiro da corte do Rei Artur, praticando cetraria no meio da floresta, encontra uma jovem donzela e num impulso violento a possui, arrebatando-lhe a virgindade. O episódio, que chega ao conhecimento do monarca, deve ser punido, e o jovem deverá morrer decapitado. Dado o veredicto, estando o jovem desesperado, intervém a Rainha para salvá-lo. Ela, entretanto, impõe uma condição: ele deverá, ao cabo de um ano e um dia, voltar à Corte e entregar-se, e só seria poupado se fosse capaz de responder à enigmática pergunta sobre o que é que as mulheres mais desejam. A Rainha explica que é necessária uma resposta satisfatória a esta questão, caso contrário o jovem morrerá.
Passado o prazo, depois de perambular por diversos caminhos, o jovem não encontra nenhuma explicação satisfatória: para uns o que as mulheres mais desejam é casar, para outros, belas roupas e adornos, cortesia e adulação masculina, ou ainda o desejo de ser livres e fazer o que bem se entende. O jovem desesperado, já no caminho de volta, sabe que não traz uma resposta satisfatória e teme por sua vida. Encontra na floresta uma megera que oferece sua ajuda e sabedoria, em troca ele deverá realizar também um desejo dela. Consultada sobre o tema em questão, os misteriosos desejos femininos, a megera sussurra-lhe a resposta em segredo e ele parte ao encontro da Rainha.
Certo do valor da resposta da megera o jovem responde com segurança à Rainha
[...] "Majestade, de modo geral", disse ele, "o que as mulheres mais ambicionam é mandar no marido, ou dominar o amante, impondo ao homem a sua sujeição. Ainda que me mate, digo que é esse o seu maior desejo. Vossa Majestade agora pode fazer comigo o que quiser: estou a seu dispor".
O jovem é então absolvido pela Rainha e pelo conjunto das mulheres presentes que aceitam a resposta como correta e satisfatória. Neste momento a megera entra em cena e pede à rainha que a justiça seja feita já que fora ela quem tinha dado a resposta certa ao rapaz. E pede que o rapaz se case com ela, com o que a Rainha e o rapaz concordam.
O jovem chora sua desgraça e parte com a megera, ela, no entanto, faz com que ele pense nos valores verdadeiros e da superficialidade das aparências. Pergunta-lhe o que ele prefere: que ela seja uma mulher feia e velha, mas submissa e fiel ou que ela seja jovem e atraente, mas que receba, eventualmente, visitas em sua casa. O jovem resignado diz que confia na sabedoria da megera e que, certamente, ela poderá escolher o melhor para eles. Com esta ponderação ela o faz reconhecer que, se ela pode escolher, ele está concordando com o fato de que é ela quem deve mandar. O jovem concorda, a megera o beija e ela se transforma numa jovem deslumbrante, reiterando assim a tese do prólogo ao conto da Mulher de Bath. A de que a felicidade e o êxito no matrimônio dependem da obediência do marido às suas mulheres:
[...] "Que Jesus Cristo mande a nós também maridos dóceis, jovens e fogosos na cama... e a graça de podermos sobreviver a eles! E, por outro lado, encurte a vida dos homens que não se deixam dominar por suas mulheres, e que são velhos, ranzinzas e avarentos... Para esses pestes que Deus envie a Peste!"
Para Chaucer, portanto, através das personagens femininas a quem ele dá voz, as mulheres querem mandar nos homens, querem mandar nos maridos, as mulheres querem o poder, o que as mulheres querem é, pura e simplesmente, mandar. Não há muitos mistérios.
Longe, no entanto, das projeções destes dois senhores, Freud e Chaucer, sobre os desejos femininos, há, certamente, uma maneira mais eficiente de conhecermos os misteriosos desejos femininos, chamados sempre, direta ou indiretamente, de enigmáticos, incompreensíveis ou descabidos. Perguntar às mulheres mesmas ainda seria a melhor maneira de sabermos a resposta. O que mais desejam as mulheres, o que mais desejam as mulheres destes tempos? Nestes tempos em que profundas mudanças sociais possibilitaram mudanças dos papéis sexuais? O querem as mulheres para suas vidas, para a vida de suas filhas? Com o que sonham, afinal, as mulheres? Só a literatura de autoria feminina pode responder a estas questões e por isto é urgente e necessária conhece-la.
E aí talvez possamos responder à velha ladainha masculina sobre o que querem as mulheres: as mulheres querem, senhoras e senhores, simplesmente, poder querer.

Amora

Menopausa, o impulso da mulher pela força da água e do fogo


Ann Mortimer, Blackberries
Não subestimem uma mulher que está na menopausa. Ela está atravessando um portal. Uma louca e uma sacerdotisa pelejam dentro dela, ambas serão incorporadas. A mulher na menopausa devora o coração das duas com os dentes gastos e a fúria de uma sobrevivente faminta. Falta-lhe, a cada dia, a visão, a cada estação ela aumenta o grau das lentes que enxergam o mundo de fora. Medida providencial para quem tem de ajustar a visão de dentro. Olhar pra fora distrai, ela vê agora, o essencial. As rugas se acumulam ao redor dos olhos, há uma estranha suavidade no semblante e olhos incandescentes. Nascem pelos no queixo e podemos vê-la, ocasionalmente, roçando os pelos, olhar perdido, despudorada. Um gesto comum este entre as valquírias que se preparam para o grande embate. Porque esta é a última oportunidade de deixar as ilusões pelo caminho.
Os pelos caem onde deveriam permanecer, nascem em lugares insólitos. Tudo se traduz numa grande inconveniência. Ela está se transformando num animal definitivo. Os olhos congestionados ao redor da pele empapuçada veem o que ninguém mais vê. O corpo exibe as marcas do tempo, não é mais belo, não é mais jovem e esta é uma grande libertação. A cabeleira perde a força, os fios de prata são ásperos. Não há reposição hormonal que dê conta da convulsão da sua alma. Ela está se transformando num bicho, num animal cujo nome desconhece. Deixa pelo caminho o manual das boas maneiras, fica de péssimo humor, se irrita com os filhos, com os homens, com as amigas. Ela está furiosa, ela chora, a alma em alvoroço. Todas as noites ela chora, não sabe para onde ir, nem quando, nem como. Ela duvida de tudo e se vê num grande deserto que tem de atravessar sozinha agora. Ela chora em momentos improváveis, ri desavisadamente, não tem mais paciência com bobagens e sua capacidade de alegria se expande. Os outros a veem frágil, vacilante, mas ela tem agora uma força e uma perseverança jamais experimentadas.
O fogo a toma por segundos, ela está em combustão, depois drena os excessos de água. Ela está conectada com a fonte e com o fogo. Fica exausta, dorme mal, acorda cedo. Há dias que comeria um animal sacrificado no meio da savana e outros de parco jejum. O mesmo acontece com o sexo. Um sexo agora sem culpa e nem performance, um sexo sem pressa, fome da carne, fome urgente, fome boa.
Ela toma chá de amora. Seu sangue é como a tintura da amora, de uma cor diferente e que lhe confere outras propriedades para que ela possa, enfim, criar a si mesma.
A mulher caminha concentrada, lembra de si quando era uma menina, uma adolescente, caminha cada vez mais em direção à casa materna, ela sabe agora o que só as mulheres velhas conhecem. Ela não perde tempo, ela avança. Deixa pelo caminho tudo o que não serve mais. É uma marcha constante, infernal, movida pela força do fogo e da água. Deixem-na ir, ela não pode parar, atravessa as noites insone, atravessa o medo, pensa obsessivamente na morte, transborda de vida e não perde tempo. Prossegue. Não subestimem uma mulher que está na menopausa. Ela é uma tartaruga velha, uma gazela, uma mulher-macaca. Ela caminha cada vez mais rápida, desgrenhada e incandescente. Ela vai atravessar o portal. Ela vai encontrar, definitivamente, consigo mesma.

Mudar não é substituir

Problemas transformados em justificativas




Mudança de luz
No Mudança e Psicoterapia Gestaltista afirma-se que conceituar comportamento como movimento é fundamental para responder às questões humanas, sejam elas vivenciais ou teóricas. Extraio deste conceito implicações para o processo humano, seu desenvolvimento, suas problemáticas, seu tratamento. Estar-no-mundo implica em mudar, em movimentar-se e a continuidade da mudança é fundamental, pois o desenvolvimento humano é uma continuidade de teses negadas, antíteses afirmadas, sínteses constituidoras de novas teses, antíteses etc em outras palavras, desenvolvimento humano é mudança, é superação do estabelecido, do contexto de ajuste, é atualizar-se, é responder aos questionamentos, aos estímulos do estar-no-mundo.
Nem sempre a mudança tem o sentido de disponibilidade e apesar de sempre ser descontextualização, ela pode criar manutenção ou uma organização rígida. Em estruturas divididas, pulverizadas em sintomas, a mudança pode corresponder à neutralização de possibilidades, onde os problemas são transformados em justificativas e aí a estagnação se instala, surgem posicionamentos, criando contextos perceptivos estáticos, autorreferenciados.
Nas situações de permanência e estagnação se realizam trocas, não são mudanças, são apenas substituições. Quando os contextos permanecem, tudo é percebido em função desta permanência. Toda percepção (Gestalt Psychology) se dá em termos de Figura e Fundo, percebemos o elemento Figural, o Fundo nunca é percebido, embora seja estruturante contextual da percepção; existe reversibilidade, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa: percebemos uma pessoa na rua, por exemplo, a pessoa é Figura e a rua é Fundo; quando se chama a atenção para a rua, a rua passa a ser Figura e a pessoa passa a ser Fundo. Esta reversibilidade é a dinâmica do processo perceptivo. A estaticidade quebra a dinâmica, gerando a permanência do Fundo, da moldura, criando uma série de estigmas, de preconceitos, tanto quanto, certezas e confiança. Pensar em alguém como um rapaz de ‘boa família’, de ‘boa aparência’, sempre gentil, educado, sem perceber que ele é um manipulador, um mentiroso contumaz - mesmo quando se é vítima direta de suas manipulações - é um exemplo, deveras comum, de estagnação perceptiva: o determinante da percepção é a moldura mantida (‘boa família’, ‘boa aparência’, ‘gentil’, ‘educado’). Tudo é percebido no contexto desta variação: transformação do que é evidente, do que contraria todas as certezas prévias, em dados irrelevantes.
Quando convicção - oriunda de garantias outras que não as vivenciadas - e medo substituem vazios motivacionais, isto se constitui em instrumento, ferramenta que permite viver: construir casa, empresa, familia e relacionamentos vários. O denso substitui o sutil, tanto quanto, o corporifica. Tudo converge para a preocupação de ficar bem, de ser aceito, ser reconhecido através de seus funcionamentos, de seu status. Este processo é criador de imagens, oportunismos, medos, ansiedade, agressividade, timidez, faz-de-conta, vazio, tédio, angustia que sempre denunciam sua humanidade amassada pelos compromissos criadores de limites esvaziadores.
Mudar resulta de dispensar padrões e contextos de referência, de descobrir o que está aqui e agora, o que é e o que não é. É o presente percebido no contexto do presente. Esta interrupção cria descontinuidade, quebra contextos anteriores e faz surgir o novo. O anterior descontextualizado é o novo, pois sua referência, seu significado muda. Relacionar-se com o novo só pode ser estabelecido quando há disponibilidade - isto é a mudança.
Não havendo disponibilidade, substitui-se e tudo permanece, tudo pode ser substituido e parecer igual, tanto quanto, diferente, quando apenas se percebe parcializadamente. A distorção parte/todo cria um infinito de substituições e transmite a variada experiência que é apenas colorir o preto e branco do vazio, das expectativas. Quanto mais se substitui, mais se mantém, menos se muda e transforma. Os mestres da exploração e conveniência política já diziam e dizem que é preciso “mudar para manter”, ou seja, sabem como substituir figuras, imagens e assim parcializando, transformam totalidades em mosaicos labirínticos.
No nível individual, “mudar para manter” (cuidar do sintoma) é a regra constante quando se transforma problemas em justificativas. Os conflitos criados por este artifício, transformam o problema em apoio (justificativa) e também em opressão (impossibilidades conflitivas).

Enlouquecimento

Estranheza e paradoxo

Dalí wallpaper
As normas societárias iniciadas na família, ampliadas pela escola, ratificadas pelas comunidades e grupos de atuação exigem adaptação, que é, normalmente, transformada em sinal de obediência, submissão ou revolta. O ser humano está sempre diante de alguém - do outro - e é exatamente esta relação que o estrutura como humano, que o faz se sentir aceito, humanizado ou é através desta relação que se coisifica, se posiciona, criando imobilidade.
Cria monotonia ser marcado pelo ritmo aceita/não aceita, conforma-se/rebela-se. É equivalente à escuta do som de um pingo d’água que repetidamente cai de uma torneira. Interromper o movimento compassado é também privar-se de um processo ritmado, calculado e controlado.
Nestes processos de adaptação, vencer etapas, quebrar obstáculos possibilita vitórias e fracassos. Os ritmos são ampliados, variações melódicas surgem, embora sempre previsíveis. Acertar o passo, não sair do compasso, se impõe. O sobrevivente sente-se vitorioso, cada passo em falso, cada erro é também uma referência, uma marca, uma sinalização para o caminho de acerto. Neste processo, deslocamentos aparecem: para ele não basta mudar a si mesmo ou ao outro, também paisagens e ambientes têm que ser reconfigurados. Dominando regras, preocupando-se com acertos e erros, o indivíduo percebe-se isolado, preso à manutenção de esquemas e a constantes sonhos de realização. A vida é constância e monotonia que nada definem além da manutenção do controle.
Deste modo, certeza, confiança, autonomia e perspectivas desaparecem. Sozinho, o indivíduo torna-se a própria pontualização de suas fragmentações. Quando ele considera suas vivências boas e satisfatórias, ele sente necessidade de compartilhá-las, mas, esta mesma necessidade do outro, destrói o que ele busca, o outro, que é então, transformado em um receptáculo das informações. Quando suas vivências são consideradas ruins, negativas, ele tenta escondê-las. Permanece dando voltas em torno de si mesmo, nada acontece além do isolamento e solidão, que se caracteriza por exibição de deslocamentos e frustrações, tanto quanto por apologia e estabelecimento de regras controladoras.
Balizado pela opinião dos outros acerca de si mesmo, perde toda e qualquer condição de entender quem é, o que faz, o que sente, o que o motiva. Este autorreferenciamento é o início do enlouquecimento. Crises, surtos, depressões surgem quando ocorrem inserções de outros parâmetros impossíveis de serem absorvidos no isolamento; a crise é a impotência gerada pela necessidade e incapacidade de quebrar o processo anterior de adaptação monocórdica, de submissão concedida a divisões conflitantes. Se instala a alienação, a desorientação total. Neste momento, geralmente, surge socorro ao enlouquecimento e não ao ser humano que enlouquece.
As circunstâncias, aderências e sintomas estabelecem o processo considerado loucura e a partir disto tenta-se libertar o indivíduo desta situação, esquecendo que em toda doença tem um doente e que a tipificação desconfigura o sujeito ao criar seu personagem: o enlouquecido. Nesta visão, não existe um sujeito doente, existe um objeto - a doença - a ser modificado, manietado. A medicalização, a socialização, tanto quanto as explicações religiosas e fatalistas, são maneiras de apoderar-se do desespero humano a fim de transformá-lo em algo não perigoso, útil e adaptável. São novas torneiras, com ritmos mais amplos, atingindo universos mais significativos e transtornantes.
É necessário evitar esta beira de abismo - o enlouquecimento - pois a partir dela, desta margem, os retornos são cada vez mais difíceis, aderentes e esvaziadores. A questão não é tratar o enlouquecimento, é evitá-lo. Para isto, sair dos padrões impostos é fundamental. Ter processos ritmados é sempre resultante da quebra de totalidades significativas do estar no mundo, ou seja, da presença do outro ser transformada e substituída por senhas de acolhimento ou rejeição, sinais de aprovação e reprovação, consequentemente, parcializações desvitalizadoras. A reestruturação dos processos que permitem a percepção do outro, quando iniciados, possibilitam a quebra dos ritmos enlouquecedores, das distorções perceptivas e reintegram o indivíduo; estas situações são encontradas nas psicoterapias, tanto quanto nos relacionamentos caracterizados por disponibilidade e aceitação. Caso contrário, a continuidade de crises, surtos e depressões levam a ancoradouros flutuantes: vícios, dependências medicamentosas e constantes sobressaltos representados por medo, pânico diante do que é esperado e inesperado. É fundamental ser o que se é: uma possibilidade de relacionamento e não uma necessidade de relacionamento. Ser não é parecer. Relacionar-se não é submeter-se.

O paradoxo do amor: felicidade x dor


Alegria e sofrimento são combinados na experiência de amar alguém


Em suas divagações sobre o amor, o poeta dissera em seu romance:
Mas que sentimento é esse que invade meu coração? Como é possível experimentar tamanha felicidade e ao mesmo tempo sentir essa dor que parece dilacerar meu coração? Será isso que chamam de amor?
A vivência de dois sentimentos opostos na experiência anímica do amor na verdade é um fenômeno bastante comum e facilmente salta das linhas do poeta para a realidade da vida cotidiana. No relato de queixas de usuárias e usuários do SOSAMF, manifestações de bem estar e desconforto/conflito nas relações afetivas com o parceiro constituem um tema recorrente, podendo chegar ao extremo da violência.
Este aparente paradoxo parece estar contido na natureza do fenômeno amoroso, pois as duas condições anímicas apontadas acima parecem estar indissociavelmente unidas, sendo que facilmente se transita de um extremo ao outro.
Sobre a felicidade por um lado, não é preciso pensar muito para entender porque nos sentimos assim. Considero que após a satisfação de suas necessidades básicas de alimento, proteção, segurança, amar e ser amado, sem dúvida é a necessidade mais essencial do ser humano do ponto de vista psicológico. Estar nessa situação miraculosa nos leva a uma sensação de totalidade experimentada na fusão com o sexo oposto e de expansão das fronteiras do ego que é sentida como felicidade. Ter alguém como uma referência afetiva e para quem se possa manifestar plenamente, alguém para quem você seja especial e que se constitui em uma presença em nossa vida capaz de mudar a configuração das coisas e o rumo dos acontecimentos, de fato faz toda a diferença do mundo. Isto se equipara a poder resgatar de alguma maneira a unidade perdida com a mãe em nossa primeira morada (o útero materno). Verdadeiramente, um “amor sem mácula”, um imprint capaz de acolher todas as nossas projeções e fantasias do(a) parceiro(a) ideal.
Por outro lado, entendo que a dor do amor nasce no exato momento em que o indivíduo começa a se sentir amado(a), pois decorre do medo da perda desse amor, do risco da entrega do seu coração a outrem... E se ele não souber “cuidar bem do nosso coração”, e se ele não é capaz de nos enxergar no mais recôndito de nossas almas, nos sentimos expostos e ficamos à deriva. E esta dor é tanto maior quanto maior for o seu amor ou a sua entrega. Todos nós temos “feridas de amor” - decepções e frustrações provenientes de relacionamentos anteriores. Tememos que se repita. Ou a perda pelo simples fato de que sabemos que tudo é finito neste mundo. Enfim, quando nos apaixonamos nos tornamos vulneráveis. Esperamos que o outro nos dê um sorriso, ou faça isto ou aquilo e se ele não faz é porque não nos ama. Nossas inseguranças emergem à superfície e se maximizam quando estamos nesse estado de graça. Enfim, é um “Deus nos acuda!”. E por isso que muitas pessoas mandam o parceiro embora ou o rejeitam antes que ele supostamente faça isso primeiro, ou nem iniciam o relacionamento para não experimentar a experiência avassaladora de solidão, fragmentação, desunião, desamparo, frustração, dor. Por outro lado, outras pessoas já vão com muita sede ao pote fazendo com que ele se quebre. Há ainda outras que agem com cautela, sentem primeiro o terreno antes de dar o próximo passo (supostamente o caminho do meio parece ser o mais sensato).
Há que se considerar ainda as manifestações de violência nas relações amorosas. A violência parece ser uma reação aberrante, que demonstra uma falência dos processos adaptativos do ser humano ou uma prova de sua incapacidade de lidar com o turbilhão de emoções que são despertadas dentro de si quando começa a se sentir traído em suas expectativas (ele não foi amado da forma como gostaria ou não pode reviver a experiência de fusão com a figura materna pelo simples fato, por exemplo, da chegada de um filho ou porque simplesmente a companheira deixou de amá-lo). Adequar expectativas e viver de acordo com o princípio da realidade costuma ser um exercício difícil para uma boa parte das pessoas e exige um certo nível de maturidade e equilíbrio emocional. Sobretudo o que é sentido como abandono é muito difícil de ser suportado e a pessoa antes amada passa a ser sentida como o “inimigo” ou um competidor. Isto facilmente acirra o ódio e as tendências mais obscuras do ser humano, que até então jaziam na sombra em estado de latência. Instaura-se uma “guerra,” onde só pode haver um ganhador e um perdedor. Isto justifica porque a grande maioria dos assassinatos ocorre quando o casal está em processo de separação ou uma das partes faz menção de sair da relação.
Todos esses processos envolvidos fazem pensar na complexidade do fenômeno amoroso, facilmente capaz de instigar o medo de amar e de se entregar a outrem. O medo talvez seja o maior entrave que impede a humanidade de avançar. Por outro lado, é o medo que nos impede de pular do último andar de um edifício. Sempre o paradoxo.

Comunicar é remediar “A linguagem é perigosa”


Freud, Nietzsche, Barthes e tantos outros viam a linguagem como algo perigoso. O ato falho, a trans valoração dos valores, a semiótica, enfim, os significados que seguem, pulam e espirram do falado, deixam claro o perigo que existe na linguagem como expressão do que se deseja comunicar.
Comunicar é expressar. Comunicação pode ter dois aspectos: configuração expressiva do que se vivencia ou artefato criado para veicular o que não se consegue expressar, seja pela distância física, seja pelos parâmetros estabelecidos para comunicação. No segundo caso - como artefato - comunicação é a roupagem, consequentemente, é esconderijo do que precisa ser revelado.
Comunicar é neutralizar distâncias, mesmo que delas se utilizando. A neutralização de impedimentos requer construções, gera projetos, intenções.
Expressar o que se vivencia é reproduzir pensamentos e percepções através da linguagem (gestos, desenhos, pinturas, falas e escritos). Toda reprodução é uma cópia, tanto quanto, originais podem ser idênticos ao copiado. O que os diferencia escapa à sua expressão. Quando Heráclito fala que tudo é a realização de contrários e pensa no movimento de atirar com arco e flecha, onde o movimento para trás era o que permitia a propulsão da flecha, ele fala da direção buscada como contrária ao movimento realizado. O movimento para trás, apoio no arco, é o que permite o disparo: o movimento da flecha. Quanto maior a oposição, maior a realização, ou ainda, quanto maior organização do que é expresso através das palavras, por exemplo, maior a coerência das mesmas.
A comunicação é sempre engendrada, porém, é preciso lembrar que, engendrar, construir é disparar, fazer surgir. Devido às variáveis intervenientes que permitem expressá-lo, nem sempre o espontâneo é o legítimo. Vivenciar a intimidade, o encontro com o que está diante, dispensa representações, dispensa explicações, não tem distância a ser preenchida, é percebido sem prolongamentos de pensamentos, sem palavras, sem desenhos e gestos.
Quando a comunicação se refere ao que já passou ou ao que se imagina poder acontecer, a memória - a volta para o passado - cria o devir expresso na comunicação. Neste sentido, a comunicação é sempre denotativa. Por isso ela se torna perigosa, enganosa e demagógica. Relacionada ao presente, ela é descritiva, pleonástica, ultrapassa sua função denotativa. Ser onomatopaica lhe confere a dimensão de expressão instantânea de vivência e é a partir disto que se constroi como sinal, signos referenciados e assim a Babel está criada, seja no universo das línguas, seja na escala individualizada das expressões vivenciais significativas.
Ao apreender e descrever os significados do pensamento - prolongamento das percepções - são possibilitados resgastes vivenciais para que as narrativas, as histórias sejam compartilhadas. Assim, comunicar é criar parâmetros, conceitos e contextos que possibilitem encontros ou escondam desencontros. As narrativas são verdadeiras quanto mais mentiras sejam neutralizadas, quanto mais se expressa e menos se comunica, no sentido de que elas são contadas independente de quem as ouve. Relatos são descrições ou relatos são instrumentos para atingir e cooptar o outro. Para comunicar é preciso estar integrado com o comunicado, quase que transformar-se na comunicação. Só assim ela deixa de ser uma ponte, um artefato e passa a unir o separado, o distante.
Nas artes, nas ciências e filosofias, quando conceitos e limites metodológicos são coerentemente estabelecidos e estruturados, quando pensamentos continuam percepções contextualizadas, quando existe integração entre o comunicador e o que ele expressa, a comunicação revela.